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Da Máquina De Escrever À I.A.: Os Desafios Da Era Digital No Exercício Da Advocacia

Por Fábio Marcos Bernardes Trombetti –

Em janeiro de 1978 iniciava a minha carreira, quando ainda estudante do Curso de Direito, como estagiário em escritório de advocacia. Concluí o curso em 1980 e me inscrevi na OAB SP em junho de 1981. De lá até hoje, assisti a mudanças radicais quanto ao exercício profissional.

Da máquina de escrever manual à elétrica e da eletrônica aos primeiros computadores, da internet ao advento do processo eletrônico e mais recentemente do surgimento da I.A. e sua utilização no campo jurídico, a revolução foi imensa. Isso para não falar das grandes mudanças legislativas, como a CF/88, CDC, CC2002, CPC 2015, para apenas citar algumas, entre tantas outras.

Na época em que iniciei era costume entre os advogados despachar as petições pessoalmente com os juízes – e, pasmem – eles nos recebiam sem marcar horário, até porque estavam todos os dias no fórum até às 19 horas! Alguns estavam no foro logo de manhã e estendiam o expediente para além do horário normal. Hoje encontrar um juiz no fórum é algo raro!

Naquele tempo, despachar com o juiz era simples, bastava ir ao fórum. Petição debaixo do braço, opúnhamos os famosos (no jargão forense) “embargos auriculares” ao magistrado e entre uma conversa e outra, íamos conhecendo o juiz e este o advogado. Tornei-me amigo, por conta disso, de alguns magistrados que conheci.

Relembro, com saudade, o tempo quando os juízes nos recebiam nas salas de audiências ou em seus gabinetes e alguns deles – os mais afáveis e educados – pediam para nos servir água e cafezinho… Pasmem, isso acontecia!

Havia então uma proximidade não só com os juízes, como também com promotores, desembargadores, serventuários, oficiais de justiça o que hoje é bem mais difícil de ocorrer.

Atualmente, como se sabe, audiências e julgamentos nas instâncias superiores são em sua maioria realizadas na forma telepresencial. Há até o balcão virtual para atendimento e por aí vão as mudanças no judiciário.

Juízes, promotores, serventuários e oficiais de justiça estavam diariamente nos fóruns para o exercício dos seus misteres. Advogados andavam apressados pelos corredores dos fóruns, seja para as audiências, seja para a verificação de processos. No fim do expediente, entretanto, sempre sobrava um tempinho para aquele cafezinho com os colegas nas lanchonetes próximas aos fóruns.

Recentemente estive no João Mendes (o Fórum Cível de São Paulo). Quanta diferença dos tempos de outrora! Antigamente era um formigueiro de pessoas. Filas para protocolar petições, para tomar os elevadores, para atendimento nos cartórios e espera das partes e advogados para as audiências. Corredores lotados de pessoas.

Hoje? O João Mendes – maior fórum cível da América Latina, salvo engano – parece um cemitério com seus corredores vazios. Tomar o elevador é fácil: não há filas. Hoje temos as UPJ (Unidade de Processamento Judicial, nome “chic”, não?). Para quem não sabe, uma unidade dessas atende muitos ofícios cíveis. Os escaninhos dos cartórios antes lotados, hoje estão vazios, nos quais jazem apenas alguns volumes de processos físicos, testemunhas mudas de um passado não tão distante.

Devo dizer, entretanto, que aprecio muito essa nova era digital e que tanto facilitou a nossa vida profissional, mas o que não gosto dela é o distanciamento que provocou entre os vários operadores de Direito. Isso não é bom sob todos os aspectos que possamos abordar. Dá-se, como que uma “desumanização” da profissão. A falta do “vis-à-vis”, tira das profissões o que elas têm de melhor.

O contato pessoal no mundo do Direito, antes tão intrínseco à nossa prática, realmente diminuiu drasticamente com a digitalização e a predominância das interações virtuais.

Na minha perspectiva, a importância desse encontro pessoal entre os operadores jurídicos é imensa e multifacetada.

O Direito, em sua essência, lida com vidas humanas, seus conflitos e anseios. Quando as interações são apenas por telas de computador ou de celular, corre-se o risco de desumanizar as partes e, em certa medida, os próprios profissionais. O contato “olho no olho” permite perceber expressões, nuances de voz e gestos que transmitem informações que o texto frio de um processo eletrônico jamais poderá captar. Isso é vital para a empatia e a compreensão aprofundada dos casos e das pessoas envolvidas.

Na era das máquinas de escrever, as relações eram construídas e mantidas presencialmente. Reuniões, audiências, conversas de corredor e até mesmo a simples presença em um fórum criavam laços de confiança e estabeleciam reputações. Essas interações informais eram e são importantes para fomentar um ambiente de respeito e colaboração, mesmo entre “adversários” processuais. A confiança é a base de qualquer sistema jurídico funcional.

Quantos impasses processuais não foram resolvidos de forma mais célere e eficaz por meio de um diálogo direto. A linguagem corporal e a entonação da voz são ferramentas poderosas em negociações e mediações. A frieza da comunicação escrita, muitas vezes, pode gerar interpretações equivocadas e dificultar o consenso.

O “chão do fórum” e os corredores dos tribunais eram verdadeiras escolas informais. Conversas rápidas com juízes, promotores e colegas advogados sobre casos, teses jurídicas e experiências práticas enriqueciam imensamente o aprendizado e o desenvolvimento profissional. A ausência desses momentos limita a troca espontânea de saberes. Essa convivência diária, ademais, propiciava um ambiente de camaradagem, coleguismo, amizade e respeito entre os diversos atores no palco que é o teatro da justiça.

E realmente, nessas oportunidades de encontro com colegas no fórum eu ainda iniciante na carreira, quanto não aprendi com os advogados mais experientes os quais sempre tive em alta conta, com juízes, promotores e serventuários.

Para o jurisdicionado, por exemplo, ver seu advogado interagindo com outros profissionais do sistema de justiça, mesmo que de forma protocolar, contribui para reforçar a percepção de um sistema coeso e funcional. A ausência de contato, por outro lado, gera a sensação de distanciamento e impessoalidade.

A era digital trouxe, sem dúvida, a agilidade e a acessibilidade tão desejada por nós advogados. Pode-se advogar em todo o território nacional por meio da internet. Os processos judiciais eletrônicos são uma revolução em termos da relativa celeridade e organização que eles proporcionaram. O desafio reside, então, em encontrar o equilíbrio entre essas forças da modernidade. Não podemos negar os benefícios da tecnologia, mas também não podemos nos render completamente à impessoalidade que ela trouxe.

É como a dualidade entre o “Logos” e o “Pathos” na retórica grega: a razão e a lógica (a eficiência digital) são cruciais, mas a emoção e a conexão humana (o contato pessoal) são igualmente vitais para a plenitude da experiência jurídica.

Finalizo esta reflexão, dizendo que acredito que para o Direito, o contato pessoal não é apenas uma questão de conveniência ou nostalgia, mas sim um pilar fundamental para a integridade, humanidade e eficácia do sistema de justiça. É um elemento que nutre a empatia, constrói relações de confiança e facilita a resolução de conflitos de forma mais harmoniosa.

O futuro não está em abandonar a tecnologia, mas em aprender a usá-la de forma que ainda permita e valorize as interações humanas essenciais. E é por isso que aproveito este espaço de troca de ideias para propor um movimento pela humanização da justiça. Não nos esqueçamos nunca de que no centro de todas as possíveis inovações tecnológicas estaremos sempre todos nós, operadores do direito e jurisdicionados, pessoas humanas com suas inquietações, tristezas, problemas e esperanças. Um sistema de justiça que não reconheça isso não pode ser chamado, verdadeiramente, de um sistema de justiça. É o que penso e fica aqui lançado o desafio: em tempos de tecnologia cada vez mais presente no exercício profissional, como conciliar esse avanços com a pessoalidade das interações com as diversas facetas das tarefas que temos diuturnamente de enfrentar, especialmente aquelas perante o judiciário?


Dr Fábio Marcos Bernardes Trombetti

Advogado há 44 anos na área cível. Foi Vice-Presidente da 57.ª Subseção Guarulhos da OAB SP e Presidente desta subseção em duas gestões. Conselheiro Efetivo Secional da OAB SP e Presidente da 18.ª TED OAB SP de 2015 a 2018. Palestrante do Departamento de Cultura e Eventos da OAB SP e Membro de diversas comissões temáticas de trabalho da OAB SP, dentre elas, Seleção e Inscrição, Conselho de Prerrogativas, Orçamento e Contas, Relações com o Poder Judiciário, 5.º Constitucional, Resgate da Memória da OAB SP (a qual fundou, institui e presidiu de 2004 a 2015). Ex-Professor Universitário na FIG/Unimesp e UnG (1986 a 1998).

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**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Assessoria de Comunicação MAI
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O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
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2 Comentários

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    Excelente artigo! Uma reflexão realmente necessária. A evolução tecnológica trouxe uma eficiência inegável ao universo jurídico, mas o seu texto lembra algo que não podemos perder de vista: justiça também é relação humana. O contato direto, o diálogo e a construção de vínculos são parte essencial da prática e fazem falta nos dias atuais. O desafio agora é exatamente esse que é exposto no artigo: aproveitar a IA e o processo eletrônico sem permitir que a tecnologia suprima a empatia, a confiança e a presença que sustentam o Direito em sua essência – e digo mais, em todas as áreas de atuação humana! Um convite valioso à humanização em plena era digital. Obrigado generosidade do seu compartilhar de vida.

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