Home / Artigos / Um homem chamado Flávio

Um homem chamado Flávio

Por Fábio Trombetti

Não, não é, provavelmente, quem você pensou. Não usava capa, como dos super-heróis dos quadrinhos. Não dispunha de armadura de aço, não voava e nem atirava teias para prender bandidos. Tampouco foi um figurão da política. Nada disso. Ao contrário, era de carne e osso, quase que anonimamente viveu, envelheceu e deixou este mundo material como qualquer outro homem.

Entretanto, seu modo de ser, de agir e de se conduzir pela vida, especialmente perante desafios e dificuldades, foi simplesmente notável. Não gostava de elogios, não se deixa seduzir por homenagens. Sua humildade e modéstia encantava a todos, embora fosse um homem de uma cultura geral invejável.

Foi jornalista, poeta, escritor, Promotor de Justiça, Delegado de Polícia, Juiz de Direito, Professor Universitário.

Esposo amoroso e dedicado, pai enérgico e ao mesmo tempo bom e generoso, seus exemplos de como viver uma vida útil a si e aos outros inspiraram a mim e ao meu irmão, ontem, hoje e sempre.

Ele vive em nossas memórias e viverá para sempre não pelos seus títulos, tampouco pelas posições que conquistou com muito trabalho e perseverança, mas sim pelos exemplos que legou a muitos, entre amigos e ex-alunos.

Chamavam-no de Doutor Flávio Cleto Giovanni Trombetti, mas eu tive a honra e o privilégio de chamá-lo de pai, e, para mim, esse é o “título” que sempre e melhor o definirá!

Fez parte de uma época em que os juízes eram respeitados por serem homens probos, cujas condutas eram irrepreensíveis perante a sociedade. Ele dizia sempre: “juiz não dá entrevistas, juiz ‘fala’ nos autos!” – “juiz tem de levar uma vida recatada” – “como alguém poderá crer na justiça, se aquele que decide não se dá ao respeito?”.

Quando jovem tive admiração e até certo fascínio por algumas pessoas, como qualquer criatura deste mundo. Meu pai, entretanto, foi o único ídolo que jamais caiu ou me desapontou. Ao contrário, até hoje, com os meus 68 anos de idade sempre me recordo de suas lições.

Ele foi nossa fonte de inspiração para cursarmos a Faculdade de Direito e nos tornarmos advogados e durante algum tempo, professores universitários.

Sim, ele nos fez crer na humanidade, nas instituições, na democracia, nos princípios republicanos e, sobretudo, no amor cristão.

E é por isso que nos tempos difíceis que nós todos, o povo brasileiro, estamos a passar é que me recordei dele, das suas lições, e, sobretudo, dos exemplos que deixou.

Certamente, se vivo estivesse, com toda certeza estaria espantado e muito triste com tudo o que vem acontecendo com as nossas instituições, especialmente diante de algumas decisões do maior e mais importante tribunal do país.

Ao que parece, os tão importantes princípios processuais da suspeição, impedimento ou do juiz natural há tempos deixaram de ser aplicados.

A quem recorrer, quando a mais alta corte de justiça deixa de aplicar essas garantias processuais com vistas a um julgamento justo e imparcial?

“A pior ditadura é a da toga” uma vez que contra ela não há defesa possível.

Urge, pois, uma reforma do Poder Judiciário, valendo lembrar que “a justiça é o pão do povo, do qual ele está sempre sedento”. Todavia, antes de reformar ou construir um novo judiciário, de bom alvitre lembrar que necessitamos de pensamentos e ideias arejadas e assentadas nos sãos e sadios princípios da moral e da ética, sem os quais, nenhuma mudança será possível.


Dr Fábio Marcos Bernardes Trombetti

Advogado há 44 anos na área cível. Foi Vice-Presidente da 57.ª Subseção Guarulhos da OAB SP e Presidente desta subseção em duas gestões. Conselheiro Efetivo Secional da OAB SP e Presidente da 18.ª TED OAB SP de 2015 a 2018. Palestrante do Departamento de Cultura e Eventos da OAB SP e Membro de diversas comissões temáticas de trabalho da OAB SP, dentre elas, Seleção e Inscrição, Conselho de Prerrogativas, Orçamento e Contas, Relações com o Poder Judiciário, 5.º Constitucional, Resgate da Memória da OAB SP (a qual fundou, institui e presidiu de 2004 a 2015). Ex-Professor Universitário na FIG/Unimesp e UnG (1986 a 1998).

Ver todos artigos do autor

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Imagem em destaque: Acervo próprio do autor

Assessoria de Comunicação MAI
Avatar
MAI
O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
Marcado:

Inscreva-se para receber o boletim informativo periodicamente

Fique por dentro das novidades com nossa newsletter semanal. Assine agora para não perder nenhuma atualização!

Um comentário

  • ANDRE LUIZ LOGELLO DE LIMA
    Responder

    Tão linda quanto a história de seu pai, é a admiração que suas palavras mostram e que certamente foi vivida por você e seu irmão. Me fez lembrar e reviver a grande admiração que tenho pela vida, biografia e historia de meu pai Deneval. Parabéns, meu irmao!
    É que o senso de justiça e equidade nos norteie e guie nestes momentos delicados.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *



Redes Sociais


Assine nossa newsletter para receber via e-mail atualizações sobre nossas publicações


Atualize-se