Uma advogada foi desligada da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Espírito Santo (OAB-ES) após publicar um vídeo nas dependências da instituição com declarações consideradas discriminatórias contra petistas. O caso ocorreu na terça-feira (27) e foi confirmado pela entidade em nota oficial na tarde de quarta-feira (28).
Vídeo com ofensas e ameaças
No vídeo, Julia Gobbo Amorim afirmou que há muitos petistas no órgão e que estava com “preconceito”. Na legenda, escreveu: “Tem neguinho (sic) que vai quicar aqui hoje”. A gravação foi feita dentro da sede da OAB-ES.
Em outro trecho, a advogada completou: “Muita gente não trabalha, muita gente que quer mamar na teta dos outros. Típico, sabe? […] Se depender de mim, eu vou dificultar a vida dessas pessoas. A partir de agora vai ser isso”. A fala foi amplamente criticada nas redes sociais.
O conteúdo gerou reação imediata da comunidade jurídica e de entidades de defesa dos direitos humanos, que apontaram caráter de assédio eleitoral e discriminação política.
Vídeo: YouTube | Fonte: www.direitonews.com.br
OAB-ES confirma desligamento
Em nota, a OAB-ES afirmou que “repudia as declarações ofensivas divulgadas em vídeo gravado por uma colaboradora nas dependências da instituição”. A entidade informou que a profissional foi desligada de seu quadro.
O texto destacou ainda que a Ordem é “uma instituição apartidária, defensora intransigente da democracia, da pluralidade de ideias e da dignidade humana”. A OAB-ES ressaltou que respeita a liberdade de expressão, mas não tolera manifestações discriminatórias nem ataques que diminuam pessoas por convicções políticas.
Questionada pelo g1, a entidade não informou qual cargo efetivamente a advogada ocupava e se outras medidas judiciais ou administrativas foram tomadas. No site do órgão, a inscrição de Julia Gobbo Amorim aparece como regular na subseção de Vila Velha.
Silêncio da advogada
O g1 tentou contato com a advogada por telefone, mas ela não atendeu e não retornou as ligações até a última atualização desta reportagem. Não houve manifestação pública da profissional sobre o caso.
A ausência de posicionamento deixa em aberto eventuais desdobramentos, como a possibilidade de abertura de processo ético-disciplinar na própria OAB ou de medidas judiciais por parte de pessoas que se sentiram ofendidas.
Repercussão na FDV
A OAB-ES também repudiou a manifestação do diretor-geral da Faculdade de Direito de Vitória (FDV), Antonio Abikair, feita nas redes sociais após o resultado das eleições. Em vídeo publicado em sua conta pessoal, o dirigente criticou profissionais da área que apoiam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e que defendem os direitos das pessoas LGBTQIAPN+.
Para a entidade, “a gravidade dessas declarações é ainda maior quando partem de quem ocupa posição de liderança em uma instituição de ensino de Direito, responsável pela formação de futuros profissionais que deverão defender a justiça, a igualdade e os direitos humanos”.
A FDV divulgou uma nota institucional na qual reafirmou seu compromisso com a democracia, a liberdade de pensamento e o respeito à pluralidade de ideias. Sem citar diretamente as declarações de Abikair, a instituição de ensino declarou que manifestações individuais de integrantes da comunidade acadêmica “não representam, necessariamente, o posicionamento institucional da FDV”.
Ao final, a FDV ressaltou que o Direito deve estar a serviço da democracia, da dignidade humana e da construção de uma sociedade mais justa e plural.
Impacto jurídico e institucional
O episódio levanta debates sobre os limites da liberdade de expressão no ambiente de trabalho e a responsabilidade de instituições na prevenção de condutas discriminatórias. Para advogados e operadores do Direito, o caso reforça a necessidade de observância do Código de Ética e Disciplina da OAB, que veda manifestações preconceituosas.
Especialistas ouvidos pela reportagem destacaram que o assédio eleitoral — caracterizado por condutas que visam constranger ou retaliar pessoas por suas convicções políticas — pode gerar consequências nas esferas trabalhista, cível e criminal, além de sanções disciplinares na própria Ordem.
A OAB-ES não detalhou se abrirá procedimento ético contra a advogada, mas o desligamento imediato sinaliza postura de tolerância zero a discursos de ódio. A entidade também não informou se o caso será encaminhado ao Tribunal de Ética e Disciplina.
O episódio ocorre em um contexto de acirramento político no país, com aumento de denúncias de assédio eleitoral em ambientes corporativos e institucionais. A atuação firme da OAB-ES pode servir de precedente para outras seccionais e entidades de classe.
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