Por Alfredo Scaff –
No Brasil, um dos problemas mais corrosivos e silenciosos que afetam a estrutura institucional do país é o desvio de função de alguns escritórios de advocacia. Em vez de atuarem como guardiões da legalidade e da justiça, muitos desses escritórios se transformaram em ferramentas do crime e da articulação política, operando nos bastidores para facilitar negociações escusas, blindar interesses privados e manipular decisões judiciais em favor de grupos econômicos e políticos. Essa prática, embora escancarada, não é condenada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que deveria zelar pela ética e integridade da profissão, mas se mantém omissa diante de um cenário que desqualifica completamente a advocacia como instrumento de justiça.
O caso do Banco Master é um exemplo emblemático dessa engrenagem perversa. A instituição, que operava com margens altíssimas em precatórios e empréstimos consignados, construiu um império financeiro sobre bases fraudulentas, incluindo a criação de R$ 12 bilhões em recebíveis inexistentes. Esses documentos falsos foram entregues ao BRB, banco estatal que hoje enfrenta insuficiência de capital e depende de socorro do Banco Central. O rombo, que pode ultrapassar R$ 50 bilhões, será pago pelos grandes bancos via Fundo Garantidor de Créditos (FGC), afetando todo o sistema financeiro e, por consequência, o cidadão comum.
Mas o que torna esse caso ainda mais grave é o papel dos escritórios de advocacia contratados pelo Banco Master. Com honorários que ultrapassam R$500 milhões por ano, esses escritórios não prestavam serviços jurídicos convencionais. Eles eram acionados para acessar magistrados, influenciar decisões e acelerar o pagamento de precatórios que, por lei, deveriam seguir uma fila cronológica. A atuação desses advogados não se limitava à defesa técnica — ela se estendia à articulação política e à corrupção institucionalizada, com suspeitas de envolvimento em esquemas de compra de decisões judiciais e favorecimento indevido.
Esse tipo de atuação não é isolado. Muitos escritórios de renome operam como pontes entre o setor privado e os corredores do poder, negociando vantagens, blindagens e decisões que deveriam ser pautadas exclusivamente pela lei. O silêncio da OAB diante dessas práticas é ensurdecedor. Ao não se posicionar, a entidade legitima o uso da advocacia como instrumento de corrupção, transformando o que deveria ser uma profissão nobre em uma engrenagem do submundo político-financeiro.
O caminho desses processos é sempre o mesmo: empresas com interesses escusos contratam escritórios com acesso privilegiado ao Judiciário e ao Executivo. Esses escritórios, por sua vez, acionam suas redes de influência para garantir decisões favoráveis, muitas vezes em troca de vantagens indevidas. O resultado é um sistema jurídico contaminado, onde a justiça é negociada e os interesses coletivos são atropelados por acordos de bastidores.
Esse cenário agrava profundamente a insegurança jurídica no país. Quando decisões judiciais deixam de ser previsíveis e passam a depender de quem tem mais influência ou dinheiro, o Estado de Direito se desfaz. Investidores perdem confiança, cidadãos se sentem desamparados e o desenvolvimento equilibrado da nação se torna inviável. A corrupção institucionalizada, alimentada por escritórios que deveriam defender a lei, mina as bases da democracia e perpetua a desigualdade.
Mais do que um problema ético, trata-se de uma crise estrutural. A advocacia brasileira, em sua face mais visível, está desqualificada. A profissão, que deveria ser sinônimo de justiça, tornou-se símbolo de articulação obscura e favorecimento ilícito. Enquanto a OAB se cala, o país afunda em um mar de insegurança, onde a lei é maleável e a justiça, uma mercadoria negociável. É urgente que esse modelo seja confrontado, exposto e reformado — ou continuaremos reféns de um sistema que premia o crime e pune a honestidade.

Alfredo Scaff – Presidente do MAI
Advogado, Graduado em Direito pela PUC-SP, com especialização em Arbitragem e Negócios Internacionais pela Harvard. Conselheiro da Fecomércio-SP e da Associação Comercial. Ex-delegado de Polícia e juiz do Tribunal de Impostos e Taxas do Estado de São Paulo.
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
Imagem em destaque: Freepix editada com Google Gemini
- O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
Últimas publicações
Artigos6 de abril de 2026Reformar para Preservar: O Brasil Precisa Corrigir o Judiciário — Não Destruí-lo
Artigos1 de abril de 2026Que Trata Da Misoginia Como Crime E A Equipara Ao Crime De Racismo. Pasme: Não Fizeram Estudo De Impacto Dessa Lei. Entenda.
Artigos27 de março de 2026Quando O Excesso Vira Ameaça: Um Alerta Urgente À Câmara Dos Deputados
Artigos13 de março de 2026O Que Você Deve Enxergar Ao Ver Erika Hilton Eleita Presidente Da Comissão De Direitos Humanos Da Mulher No Brasil Da Câmara Dos Deputados

























