Crisleia Rodrigues, nascida na Comunidade Quilombola Saco Curtume, zona rural de São João do Piauí, tornou-se a primeira advogada quilombola do Piauí, conforme reconhecimento da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas. A conquista, consolidada com a entrega da carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em agosto de 2024, encerra uma trajetória marcada por desafios socioeconômicos e persistência acadêmica.
A profissional concluiu o curso de Direito em 2024 e, desde então, exerce a advocacia em escritório próprio na zona rural de São João do Piauí. Sua história reflete a luta por inclusão de populações tradicionais no ensino superior e no mercado jurídico.
Origem humilde e trabalho precoce
Antes de ingressar na universidade, Crisleia trabalhou como auxiliar de cozinha e em serviços domésticos ainda na juventude. A rotina na comunidade quilombola Saco Curtume, distante dos grandes centros, impunha limitações de acesso à educação formal.
A virada ocorreu no fim de 2018, quando um projeto idealizado por Nêgo Bispo, uma das principais lideranças quilombolas do país, abriu portas para o ensino superior. A iniciativa estava vinculada a uma contrapartida de arrendamento de áreas para geração de energia.
Uma empresa do setor energético comprometeu-se a oferecer bolsas de estudo para jovens de comunidades quilombolas da região, viabilizando o ingresso de Crisleia na graduação.
Seleção e mudança para Picos
Após ser aprovada em processo seletivo realizado em São João do Piauí e em Picos, Crisleia mudou-se para Picos para cursar Direito. A adaptação à nova cidade trouxe desafios financeiros imediatos.
“Chegando em Picos, trabalhei como babá para conseguir custear algumas despesas”, contou. A dupla jornada de estudos e trabalho marcou todo o período da graduação.
Além das dificuldades econômicas, a distância do filho, que tinha menos de um ano quando ela iniciou o curso, pesou emocionalmente. “Pensei em desistir várias vezes. A saudade de casa, do meu filho e da minha família me consumia”, relembrou.
Preconceito e persistência na faculdade
O ambiente acadêmico também apresentou barreiras. Crisleia relatou que o preconceito por ser quilombola e oriunda de escola pública foi constante. “Era uma faculdade particular. Enfrentamos muito preconceito. Nos olhavam como se fôssemos incapazes. Ser quilombola e vir de escola pública era algo que incomodava algumas pessoas. Persistimos porque a vontade de vencer foi maior”, disse.
A fala evidencia o estigma enfrentado por estudantes de minorias em instituições privadas, um obstáculo adicional à formação jurídica.
Conquista da OAB e reconhecimento
Em 2024, Crisleia concluiu o curso de Direito. Em agosto do mesmo ano, recebeu a carteira da OAB e passou a exercer oficialmente a profissão. “No dia em que recebi a minha carteira, passou um filme pela minha cabeça. Era a oportunidade da minha vida, mas precisei abrir mão de muitos momentos ao lado do meu filho para seguir esse caminho”, relembrou.
Com a inscrição ativa, ela tornou-se a primeira advogada quilombola do Piauí, segundo a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas. A entidade, que acompanha sua trajetória desde a graduação, informou que, até a publicação desta reportagem, ela é a única quilombola formada em Direito e com registro ativo na OAB no estado.
Atuação profissional e legado
Atualmente, Crisleia Rodrigues atende em escritório próprio localizado na zona rural de São João do Piauí. Sua presença na advocacia representa um marco para a representatividade quilombola no sistema de justiça.
“Tive que estudar o triplo para vencer um sistema que, na maioria das vezes, é injusto. Engolir o choro foi necessário por diversas vezes. A batalha foi vencida na ponta da caneta”, afirmou. A declaração sintetiza a resiliência necessária para superar as desigualdades estruturais.
A trajetória de Crisleia inspira outras jovens de comunidades tradicionais a buscarem formação superior e carreiras jurídicas, ampliando a diversidade no campo do Direito.
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