Por Alfredo Scaff –
Em um recente episódio que ganhou repercussão nacional, uma palestra proferida em uma universidade para formandos de Direito expôs de maneira clara a fragilidade crítica de parte da juventude acadêmica diante de situações que envolvem diretamente os fundamentos do Estado de Direito. Durante a exposição, um magistrado de alta corte utilizou de sarcasmo ao se referir à prisão de um ex-chefe de Estado, e a reação imediata dos estudantes foi aplaudir, sem qualquer reflexão sobre o peso institucional e democrático que tal manifestação carrega. O gesto, aparentemente banal, revela uma preocupante miopia: a incapacidade de distinguir entre a retórica política e o compromisso com os valores constitucionais, os direitos humanos e o devido processo legal.
Esse episódio não pode ser analisado isoladamente. Ele se soma a um contexto em que membros da magistratura são alvo de questionamentos por envolvimentos indiretos em contratações de escritórios de advocacia com valores considerados exorbitantes, levantando suspeitas sobre a lisura e a moralidade de tais práticas. Ainda que não se trate de ilegalidade formal, a percepção pública é de que há um ambiente de favorecimento e de abuso de poder, o que compromete a credibilidade da Justiça. Quando juízes que deveriam ser guardiões da Constituição se tornam protagonistas de polêmicas que os colocam sob suspeita de violações de direitos humanos e de práticas incompatíveis com a ética republicana, o risco institucional se torna evidente.
O mais grave, contudo, é a reação dos estudantes. Jovens que deveriam ser formados para questionar, analisar criticamente e defender os pilares da democracia se mostram coniventes com discursos que, em essência, banalizam o devido processo legal e naturalizam o abuso de poder.
Aplaudir o sarcasmo diante de um tema tão sensível não é apenas um gesto de entusiasmo juvenil, mas um sintoma de uma formação acadêmica que privilegia a militância ideológica em detrimento da reflexão jurídica. As universidades públicas, que deveriam ser o espaço de construção da elite intelectual do país, vêm sendo ocupadas por uma cultura ativista que confunde democracia com partidarismo, e crítica com adesão acrítica a narrativas dominantes.
Essa deformação cultural ameaça diretamente o futuro da nação. Se os futuros operadores do Direito não são capazes de enxergar a diferença entre justiça e vingança, entre legalidade e arbitrariedade, entre democracia e ideologia, o sistema jurídico corre o risco de se tornar mero instrumento de poder. A ausência de senso crítico diante de fatos concretos da vida real, como contratações suspeitas, decisões judiciais questionáveis e discursos que afrontam valores democráticos, revela que a formação acadêmica está cada vez mais distante da realidade social e institucional.
O resultado é um ambiente em que a juventude universitária, em vez de se tornar guardiã da Constituição e defensora dos direitos humanos, se transforma em plateia de aplausos para manifestações que corroem os fundamentos do Estado de Direito.
Essa postura não apenas fragiliza a democracia, mas legitima práticas que podem ser interpretadas como violações de tratados internacionais e como abuso explícito de poder. Quando a elite intelectual em formação se mostra incapaz de distinguir entre ideologia e democracia, o país perde sua capacidade de renovar lideranças comprometidas com a justiça e com a liberdade.
Portanto, o episódio da palestra não é apenas um fato isolado de sarcasmo e aplausos. Ele é o reflexo de uma crise mais profunda: a substituição da reflexão crítica pela militância, da busca pela verdade pela adesão a narrativas, da defesa da Constituição pela submissão a ideologias.
Se as universidades públicas, que deveriam ser o berço da racionalidade e da crítica, continuam a formar profissionais cegos diante da realidade, o futuro do Brasil estará comprometido.
O cerne da questão não é apenas jurídico, mas cultural: enquanto a ideologia prevalecer sobre a democracia, a sociedade continuará aplaudindo o abuso de poder e ignorando os princípios que deveriam sustentá-la.

Alfredo Scaff – Presidente do MAI
Advogado, Graduado em Direito pela PUC-SP, com especialização em Arbitragem e Negócios Internacionais pela Harvard. Conselheiro da Fecomércio-SP e da Associação Comercial. Ex-delegado de Polícia e juiz do Tribunal de Impostos e Taxas do Estado de São Paulo.
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
Crédito da imagem em destaque: Gemini
- O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
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