A advocacia brasileira vive um novo ponto de inflexão. Depois da digitalização dos processos, que reduziu o tempo médio de tramitação de 12 para 3 anos, a inteligência artificial desponta como a tecnologia capaz de promover o próximo salto do setor. A constatação é de especialistas que acompanham a evolução tecnológica no mercado jurídico.
O caminho até aqui, porém, não foi linear. Ainda que abrisse caminho para uma Justiça menos dependente do transporte e do manuseio de autos físicos, a inovação enfrentou resistências, questionamentos e a lei chegou ao ponto de receber uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI). Mesmo assim, o saldo é, sem dúvidas, positivo.
Digitalização reduziu tempo processual drasticamente
Ao final de 2023, os processos físicos em andamento acumulavam, em média, 12 anos, contra apenas 3 dos eletrônicos. No ano seguinte, 99,4% dos novos processos ingressados no Judiciário brasileiro eram digitais. Esses números evidenciam a consolidação do processo eletrônico e a superação das barreiras iniciais.
A história da inovação no mercado jurídico, porém, começa muito antes. Em 1959, por exemplo, o xerox simplificou a reprodução de documentos com o simples toque de um botão. Mais tarde, o fax ampliou a capacidade do sistema de Justiça com menor dependência da presença física. Essas tecnologias prepararam o terreno para as transformações atuais.
IA surge como tecnologia da vez
Mais recentemente, a inteligência artificial surge como a tecnologia da vez com potencial para proporcionar o próximo salto da advocacia. Combinando confidencialidade, governança e segurança de dados, a IA amplia espaço para julgamento e trabalho intelectual do profissional. Em países mais maduros na adoção de tecnologia, essa transformação é uma realidade consolidada no setor jurídico.
Observar o que acontece lá fora importa porque oferece um panorama claro do que podemos esperar que aconteça aqui. Historicamente, o Brasil implementa inovações com uma defasagem temporal em relação aos Estados Unidos – com atraso, elas chegam e se estabelecem no país. Um exemplo disso é a própria popularização da internet.
Brasil adota inovações com atraso
Em 2002, mais de 50% da população norte-americana era conectada, enquanto o Brasil atingiu esse patamar apenas em 2013. Mais recentemente, as corridas por aplicativo reforçaram essa relação. A Uber chegou ao Brasil quatro anos depois da primeira viagem realizada nos Estados Unidos e, atualmente, são realizadas aqui mais viagens pelo aplicativo do que em qualquer outro país do mundo.
No setor jurídico, uma pesquisa da Thomson Reuters de 2026 com 27 países mostrou que o uso de IA generativa praticamente dobrou em relação ao ano anterior, tanto em escritórios de advocacia quanto em departamentos corporativos. Ao mesmo tempo, o número de advogados mantém um ritmo de crescimento estável nesses países. Uma pesquisa realizada em parceria com a Bain & Company mostrou que no Reino Unido e na França, por exemplo, o número de profissionais aumentou 3% e 2%, respectivamente.
Consolidação da IA no Brasil é questão de tempo
Se a tendência histórica se confirmar, é questão de tempo para que o uso de inteligência artificial se consolide em escritórios de advocacia e departamentos jurídicos no Brasil. É por isso que o compromisso com a responsabilidade deve orientar qualquer tecnologia construída em prol da advocacia, colocando o advogado em uma posição central na estratégia, no relacionamento com o cliente e na tomada de decisão.
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