Por Alfredo Scaff
Em recente entrevista concedida durante visita à Indonésia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “traficantes são vítimas dos usuários também”. A frase, que gerou imediata reação da oposição e da sociedade civil, foi posteriormente classificada pelo próprio presidente como uma “frase mal colocada”. No entanto, o impacto de uma declaração presidencial não se desfaz com uma simples retratação.
Palavras ditas por um chefe de Estado reverberam dentro e fora das fronteiras nacionais, moldando percepções, influenciando políticas e, por vezes, legitimando discursos perigosos.
O Brasil vive um momento delicado em sua luta contra o crime organizado. Em 2025, o país registrou mais de 86 mil ocorrências de tráfico de drogas entre janeiro e maio, um aumento de 11,5% em relação ao ano anterior. No mesmo período, foram apreendidos mais de 664 mil quilos de entorpecentes, com destaque para maconha e cocaína. A média diária de apreensões ultrapassa 4 mil quilos. A Polícia Federal estima que cerca de R$7 bilhões em bens foram retirados de organizações criminosas apenas neste ano. Esses números revelam não apenas a dimensão do problema, mas também o poder econômico que o tráfico exerce sobre comunidades, instituições e até mesmo sobre a política.
Diante desse cenário, a fala presidencial soa como um ato falho que transcende o campo da retórica. Ao sugerir que traficantes são vítimas, mesmo que em um contexto de crítica à política antidrogas dos Estados Unidos, Lula relativiza a responsabilidade de quem lucra com a destruição de vidas e comunidades. A preocupação não está apenas na frase em si, mas no que ela revela sobre a visão de mundo de quem governa. Trata-se de um posicionamento que reforça a percepção de que o atual governo carece de capacidade moral e intelectual para enfrentar os desafios impostos por um país praticamente dominado pelo crime organizado.
O Partido dos Trabalhadores (PT), ao qual o presidente pertence e foi fundador, também enfrenta suspeitas que agravam esse quadro. Há preocupações crescentes sobre vínculos financeiros ilícitos com regimes autoritários por meio do Foro de São Paulo, organização que reúne partidos de esquerda da América Latina, incluindo governos com histórico de repressão e corrupção. Embora ainda não haja provas conclusivas, o simples fato de tais suspeitas existirem já compromete a credibilidade institucional do governo brasileiro e levanta dúvidas sobre sua independência política e moral.
A repercussão internacional da fala de Lula é outro ponto de alerta. Os Estados Unidos, principal parceiro comercial do Brasil, têm adotado medidas cada vez mais duras contra o narcotráfico, classificando cartéis como organizações terroristas e promovendo ações militares no Caribe e no Pacífico. Ao minimizar o papel dos traficantes, o presidente brasileiro compromete a cooperação bilateral em segurança e prejudica significativamente acordos comerciais e diplomáticos. Em um mundo cada vez mais interconectado, declarações infelizes não ficam restritas ao noticiário local — elas afetam diretamente o posicionamento do Brasil no cenário global.
É preciso reconhecer que o combate ao tráfico de drogas exige uma abordagem multifacetada, que envolva prevenção, tratamento, repressão e políticas sociais. No entanto, isso não pode ser confundido com a inversão de papéis entre vítima e algoz. O traficante não é vítima do usuário — é agente ativo de um sistema que se alimenta da vulnerabilidade alheia. A fala de Lula, ainda que posteriormente “corrigida”, revela uma desconexão preocupante com a realidade brasileira e com os anseios de um povo que vive sob o medo constante da violência.
Diante de tudo isso, resta a dúvida: estaria o Brasil sendo governado por alguém que não possui as condições mentais necessárias para liderar uma nação de dimensões continentais e complexidades profundas ou por alguém que realmente quer implementar a política da impunidade e de defesa do crime? A resposta, seja ela qual for, se insinua nas entrelinhas de cada ato falho, de cada frase mal colocada, de cada silêncio diante das suspeitas que pairam sobre o governo. E são nessas situações que a verdade aparece, nua e crua.

Alfredo Scaff – Presidente do MAI
Graduado em Direito pela PUC-SP, com especialização em Arbitragem e Negócios Internacionais pela Harvard. Conselheiro da Fecomércio-SP e da Associação Comercial. Ex-delegado de Polícia e juiz do Tribunal de Impostos e Taxas do Estado de São Paulo.
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
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- O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
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