Uma auditoria interna do Banco de Brasília (BRB) detectou o pagamento de R$ 33 milhões do banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ao escritório da advogada Dalide Corrêa, tratada em mensagens de executivos como ‘sócia de Gilmar’ Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). A informação foi revelada pelo Estadão na última quinta-feira e reforça o escrutínio sobre a relação entre o setor financeiro e o decano da Corte.
O pagamento milionário ocorreu no contexto da malsucedida tentativa de compra do Master pelo BRB, banco estatal de Brasília. A auditoria interna do BRB se debruçou sobre a operação e identificou a transferência da cifra milionária ao escritório de Dalide pela instituição de Vorcaro. A Polícia Federal também encontrou mensagens nas quais um dos executivos do Master, Alberto Félix, trata a advogada como ‘canal direto com o STF’.
Vínculo com Gilmar Mendes é negado
Dalide Corrêa deixou o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP) em 2016. Em Brasília circula a versão de que a advogada deixou a faculdade por desavenças com o ministro e sua família, mas a equipe da coluna apurou que ela e o decano são próximos até hoje e não se afastaram a despeito do desligamento do instituto.
Em nota, o gabinete de Gilmar afirmou que Dalide ‘nunca foi sócia do IDP’ e apenas ocupou o ‘cargo técnico de diretora-geral’. A advogada também negou vínculo societário com a instituição de ensino e disse ter ocupado a função de direção ‘por cerca de nove anos’. A divergência entre as versões não foi esclarecida pelas partes.
Pagamento de R$ 15 milhões priorizado
Pouco mais de três meses antes do alerta acerca da sócia de ‘GM stf’, Rennó já havia advertido Vorcaro sobre a prioridade no pagamento de uma fatura de R$ 15 milhões destinada a Dalide. Em mensagem de 27 de agosto de 2024, o diretor jurídico do Master escreveu ao CEO: ‘Amigo, tudo bem? Quando possível dê ok com certa urgência ao Félix! Turma na outra ponta cobrando forte’, em referência a Alberto Félix, então superintendente-executivo de tesouraria.
Na sequência, Rennó respondeu: ‘Aquela fatura de 15m para a Dra Dalide ! André te mandou a explicação ontem! Obtivemos vitória importante no caso da Catende!’. A menção ao caso Catende remete a disputas bilionárias do setor sucroalcooleiro.
Disputas bilionárias e precatórios
As causas citadas são bilionárias e se arrastam há mais de 30 anos, derivadas de reivindicações de usinas por indenizações referentes ao tabelamento de preços de produtos do setor pelo governo federal durante os anos 80 e 90. No período de expansão meteórica do Master, o modelo de negócios do banco era em boa parte sustentado por precatórios – ordens de pagamento determinadas pela Justiça a municípios, estados ou da União que costumam demorar anos para serem liberados.
O banco comprava esses papéis a um preço baixo e não só inflacionava os valores no balanço, como também os considerava créditos de recebimento garantido. Em 2024, 47% da carteira era composta por precatórios e direitos creditórios comprados pelo Master. Além disso, parte dos papéis eram vendidos para fundos da Reag que os compravam por valores superfaturados como forma de desviar o dinheiro do banco.
Aproximação com o decano
Conforme publicado na última quinta-feira, mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro também revelam que o então banqueiro foi aconselhado em abril de 2024 pelo empresário Chiquinho Feitosa, à época cunhado de Gilmar Mendes, a se aproximar do magistrado. Uma das disputas judiciais no setor que chegaram ao Supremo levou o ex-banqueiro a buscar uma aproximação com o decano da Corte.
Questionada se discutiu as ações de precatórios com Chiquinho, a advogada afirmou ‘não ter contato com o senhor Chico Feitosa há muitos anos’. O ex-cunhado de Gilmar admitiu à equipe da coluna ter tido um contrato de ‘curto período’ com a Super Empreendimentos, do ecossistema do Master, mas não esclareceu o período de vigência, o valor nem o escopo de atuação. De acordo com a Folha de S. Paulo, o montante era de R$ 500 mil mensais.
Notas oficiais e divergências
O gabinete do ministro Gilmar Mendes afirmou que ‘o Ministro não tem conhecimento de atuação da advogada em processos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro. Dalide Corrêa nunca tratou desse assunto com o Ministro’. A assessoria da advogada informou que ‘a sócia Dalide Corrêa jamais manteve sociedade com o ministro Gilmar Mendes; apenas ocupou a função de diretora-geral/administradora do IDP por cerca de nove anos. A sócia não mantém relação com o BTG’.
Sobre os processos, a defesa declarou que ‘os processos mencionados são públicos e refletem a atuação regular da advocacia, com resultados favoráveis e desfavoráveis’. Por fim, a sócia informou ‘não ter contato com o senhor Chico Feitosa há muitos anos’. As investigações seguem em andamento, e a fonte não detalhou eventuais desdobramentos.
Fonte
- www.direitonews.com.br
- Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros (fenaj.org.br)
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