Por Alfredo Scaff –
O episódio recente envolvendo um professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que incitou violência contra a filha de um empresário apenas por ela ser rica, revela algo muito mais preocupante do que um comentário isolado nas redes sociais. Trata-se de um sintoma claro de um problema estrutural que se agrava há anos: a ocupação das universidades públicas brasileiras por grupos de militância ideológica que, em nome de uma pretensa liberdade acadêmica, transformaram o espaço universitário em terreno de intolerância política e doutrinação partidária.
O ambiente universitário deveria ser o mais plural da sociedade. Ali deveriam florescer o debate de ideias, a pesquisa livre, a formação crítica e o respeito à diversidade intelectual. Em vez disso, o que se vê, em muitos casos, é a imposição de uma visão única, a perseguição a quem ousa discordar e a completa inversão de valores: quem pensa diferente da hegemonia ideológica é tratado como inimigo, não como interlocutor.
E isso não é um problema pequeno ou invisível. Em 2019, por exemplo, uma pesquisa do Datafolha revelou que 81% dos brasileiros acreditam que as universidades públicas deveriam ser politicamente neutras, enquanto apenas 17% aceitam que docentes e alunos usem o ambiente acadêmico para militância partidária. Essa percepção majoritária mostra que o público que financia essas instituições espera um espaço de aprendizado e debate plural, não uma extensão de partidos ou movimentos.
O caso da UFRJ, onde o docente escreveu “só guilhotina…” em resposta à imagem de uma criança de cinco anos com uma bolsa de grife, é grotesco por si só. Mas o mais grave é perceber que esse tipo de comportamento tem sido naturalizado em parte da academia. É a radicalização travestida de discurso progressista — o mesmo discurso que prega empatia, inclusão e direitos humanos, mas que não hesita em atacar pessoas, até mesmo crianças, por sua condição social ou econômica.
Além disso, há o problema objetivo dos custos. Em 2023, segundo o Tesouro Nacional, o governo federal destinou mais de R$ 61 bilhões para universidades e institutos federais. É um valor expressivo, pago por toda a sociedade, inclusive por quem jamais terá acesso a essas universidades. O que a sociedade espera em troca é ensino de qualidade, pesquisa relevante e inovação — não palanques ideológicos.
A politização das universidades também afeta o desempenho acadêmico. Dados do World University Rankings mostram que, entre as 20 melhores universidades da América Latina, o Brasil tem apenas algumas posições de destaque — e mesmo essas vêm caindo nos últimos anos. Um dos fatores citados por especialistas é justamente a dificuldade de garantir ambiente acadêmico disciplinado, livre para pesquisa, mas imune a radicalizações e disputas partidárias internas.
É hora de abrir esse debate com seriedade. Precisamos discutir medidas para garantir a pluralidade real de ideias e coibir o uso político-partidário dentro das instituições públicas de ensino superior. Isso não significa censurar ou cercear opiniões, mas impedir que cargos e recursos públicos virem instrumentos de propaganda. Professores e servidores que usarem suas funções para proselitismo partidário devem ser responsabilizados.
Também é necessário criar canais seguros para denúncias de assédio ideológico, para que alunos e docentes tenham garantido o direito de se expressar livremente sem medo de perseguição. Sem falar na urgente necessidade de enfrentar com rigor a conivência com o uso e tráfico de drogas nos campi. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, casos de tráfico em áreas universitárias já geraram investigações formais em pelo menos 9 estados nos últimos cinco anos — e há indícios de que muitas administrações preferem varrer o problema para debaixo do tapete em nome de uma suposta “autonomia”.
Vale lembrar que a Constituição Federal, no art. 5º, inciso IV, assegura a liberdade de expressão. Esse é um direito fundamental, pilar de toda democracia. Mas liberdade não é licença para abuso. Quem ocupa cargo público, ensina ou influencia dentro de uma instituição sustentada com dinheiro público precisa arcar com as responsabilidades legais e morais de suas palavras e ações.
O Brasil precisa decidir que tipo de universidade quer para as próximas gerações. Uma universidade que respeita o contraditório, valoriza o saber e forma cidadãos livres? Ou uma universidade sequestrada por grupos que confundem ensino com ativismo e liberdade com impunidade? Não se trata de ideologia. Trata-se de compromisso com o futuro do país.
Fontes:
https://www.uol.com.br/
https://www.tesourotransparente.gov.br/
https://www.timeshighereducation.com/
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/
https://www.planalto.gov.br/
Imagem: diariodocentrodomundo.com.br

Alfredo Scaff – Presidente do MAI
Graduado em Direito pela PUCCAMP, especialista em Negociação Internacional de Negócios, Liderança em Harvard e Inglês na NESE (MA, EUA) e em Arbitragem pela PUCSP. Possui experiência e atuação profissional em diversos órgãos brasileiros, como OAB, CETESB, DECAP, Casa Civil, entre outros.
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
- O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
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