O professor Humberto Ávila, titular de Direito Tributário da USP, criticou a produção doutrinária apressada sobre a reforma tributária durante o III Congresso de Direito Tributário sediado pelo IDP, em Brasília. Segundo ele, a pressa em publicar artigos sobre o tema tem gerado interpretações superficiais e repetitivas, que podem comprometer a compreensão adequada do novo sistema de tributação sobre o consumo.
“As pessoas começaram a escrever sobre a reforma porque todo mundo quer ser especialista. Escrevem artigos correndo na hora do almoço, sem refletir, e vão repetindo o que os outros repetem. E os próximos repetem o que outros já repetiram. E assim vamos fazendo doutrina”, afirmou Ávila, que também é advogado e parecerista.
Base ampla virou bordão sem reflexão
Um dos principais pontos criticados pelo professor é a ideia de que o IBS e a CBS instituíram uma base ampla de tributação, expressão que se tornou um bordão na produção literária sobre o tema. Essa amplitude se daria porque, ao substituir e unificar tributos como ICMS, ISS, PIS e Cofins, a Constituição decidiu pela incidência sobre “operações com bens e serviços” de maneira geral. No entanto, isso não significa que alcançará toda e qualquer operação que se deseje classificar assim.
Ávila sustenta que, implicitamente e por pressupostos, a Constituição aponta que a tributação depende de fatores como atividade econômica, que esteja inserida em um ciclo econômico e, a depender do caso, revestida de habitualidade. “Todos estão se baseando só naquela camadinha, tal como a pontinha do iceberg que está fora da água, esquecendo-se de toda aquela camada de significação que está submersa. E nessa camada é que encontramos limitações às instituições desses tributos”, avaliou.
Significação profunda é ignorada
O professor destacou que a análise da reforma tributária tem sido feita na parte mais superficial, sem se atentar para as profundezas dos significados, os quais não são organizados de maneira lógica, sem definir o que é hierarquicamente superior. “O que eu vejo, na verdade, é que a tal da base ampla que todo mundo repete que nem papagaio, na verdade, não é tão ampla assim. Então é preciso ter atenção para o fenômeno da significação”, acrescentou.
Essa falta de profundidade, segundo Ávila, pode levar a equívocos na aplicação da norma, especialmente em relação às limitações constitucionais implícitas que restringem o alcance dos novos tributos.
Inteligência artificial agrava o problema
Humberto Ávila ainda destacou que o uso de motores de inteligência artificial piora esse problema. Esses sistemas trabalham com estrutura de raciocínio estatístico probabilístico: analisam o que já foi feito e respondem pela probabilidade de que ocorra de novo. Se todo mundo que lê a Constituição diz que “a base é ampla”, a resposta da IA quando perguntada sobre o tema será a mesma até que o desvio padrão possa identificar e modificar a base de dados.
O professor alertou que essa dinâmica pode consolidar interpretações equivocadas, dificultando a correção futura e aumentando os custos de conformidade para os contribuintes.
Custo doutrinário preocupa
“Todo mundo está preocupado com questões técnicas — e devemos ficar preocupados mesmo —, mas existe uma parte doutrinária que me preocupa muito, porque está sendo produzida de maneira irrefletida, e isso vai gerar um custo muito grande”, concluiu o professor. A fala reforça a necessidade de uma reflexão mais cuidadosa por parte dos operadores do Direito diante das mudanças trazidas pela reforma tributária.
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