Por Fábio Trombetti
Batendo-se contra os primeiros raios de Sol da manhã, persistia a noite em deixar-se ficar e a pouco e pouco vencia a luz a escuridão que não mais se debatia, entregando-se gentil e docilmente às fulgentes e suaves carícias de Apolo.
E eis que a luz se faz plena e bela naquela manhã, a iluminar as copas das árvores e as flores dos jardins daquela estância voltada à beleza, amor e prazer.
Ouvia-se por todos os cantos o feliz gorjeio dos pássaros que de galho em galho, em alvoroço, pareciam entoar um hino em homenagem àquele que em sua carruagem de fogo principiara a sua carreira pelo céu, entre alvas nuvens pintadas no firmamento anil.
Perpassando a janela do quarto de Frinéia, via-se fracamente iluminado aquele cômodo, deixando entrever o seu lânguido corpo ainda entregue aos braços de Morfeu.
Entre sombras e fracas luzes, toldadas pelas cortinas que adornavam a janela, poder-se-ia divisar as curvas e suaves traços do escultural corpo de Frinéia, mal escondido pelas finas vestes de dormir que pareciam querer deixá-la desnuda em louvor e honra à deusa do amor.
E não fora por estes dotes de rara beleza que Praxíteles, o exímio escultor de deuses e deusas, a teria tomado por modelo para desvelar do frio mármore de Paros a estátua de Afrodite Cnídia?
Pois ali estava ela, estendida em seu leito, corpo à mostra, quase despida, as finas vestes transparentes revelando seu esguio e belo corpo. Certamente que quem pudesse tal cena enxergar se envolveria em indizível emoção impossível de ser contida ou abrandada.
Frinéia, expressão viva – ela própria – de uma deusa. Praxíteles nela viu a encarnação de seu ideal de beleza. Seu corpo representava a mais perfeita personificação da sublimidade por ele tão cultuada e buscada, modelo vivo reunindo com rara graça e perfeição, a harmonia, a proporção e a simetria: verdadeiro presente dos deuses. Tomou-a, o mestre do cinzel, por sua musa, sentindo que a sua busca pela perfeição finalmente tivera fim.
O sono, contudo, já se havia dispersado como névoa diante da urgência daquele dia. Frinéia ergueu-se e o tecido diáfano, ao se mover, permitiu que a luz da manhã delicadamente beijasse sua alva cútis. O Areópago a aguardava. Ali, sob a imponente colina sagrada, o destino de sua vida e a definição de sua moralidade seriam decididos por homens que viam sua liberdade e seu esplendor como um desafio e até uma afronta à sociedade ateniense. Vestindo o peplos branco, como se fora verdadeira armadura de seda, não sem alguma hesitação, deixou a alcova do lar. O caminho a levaria da intimidade sagrada do recesso de seu lar para a fria hostilidade dos homens, cujos olhares petrificavam a alma e, por sua frieza, refletiam nas seis colunas coríntias, ainda imponentes apesar dos séculos.

Dr Fábio Marcos Bernardes Trombetti
Advogado há 44 anos na área cível. Foi Vice-Presidente da 57.ª Subseção Guarulhos da OAB SP e Presidente desta subseção em duas gestões. Conselheiro Efetivo Secional da OAB SP e Presidente da 18.ª TED OAB SP de 2015 a 2018. Palestrante do Departamento de Cultura e Eventos da OAB SP e Membro de diversas comissões temáticas de trabalho da OAB SP, dentre elas, Seleção e Inscrição, Conselho de Prerrogativas, Orçamento e Contas, Relações com o Poder Judiciário, 5.º Constitucional, Resgate da Memória da OAB SP (a qual fundou, institui e presidiu de 2004 a 2015). Ex-Professor Universitário na FIG/Unimesp e UnG (1986 a 1998).
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- O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
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