Uma infância marcada pela fome, pelo trabalho precoce e pela escassez de recursos não impediu que a baiana Rosilene alcançasse a magistratura. A trajetória, revelada em entrevista ao g1, expõe os desafios enfrentados desde os primeiros anos de vida no semiárido até a conquista do cargo de juíza, evidenciando resiliência e determinação.
Infância de trabalho e privações
Rosilene começou a trabalhar aos 6 anos, ajudando o pai na lavoura ao lado de uma das irmãs. “Começamos a trabalhar muito pequenas, puxando boi e cavalo para arar a terra, porque não tínhamos condições de usar trator. Meu pai vinha atrás empurrando o arado e a gente ia na frente conduzindo os animais”, relembrou. Além do plantio, as meninas participavam da colheita, enfrentando longas jornadas sob o sol intenso do semiárido.
Apesar das dificuldades, Rosilene nutria um sonho incomum para sua realidade: desde pequena, gostava de intermediar discussões entre os irmãos, o que levou os pais a chamá-la de “juíza da casa”. Ela incorporou o apelido e passou a afirmar que seria juíza quando crescesse, mesmo sem compreender plenamente o significado da profissão. A educação, porém, foi um caminho árduo: em determinado momento, ficou um ano inteiro sem estudar por falta de professor na comunidade.
Mudança para a cidade e revezamento de sapato
Aos 9 anos, Rosilene precisou deixar a casa dos pais para continuar os estudos. Ela e a irmã foram enviadas para a zona urbana de Oliveira dos Brejinhos, inicialmente morando com uma tia. A convivência não prosperou devido a fatores como preconceito e insinuações sobre duas crianças viverem longe dos pais. Com 10 e 11 anos, respectivamente, as irmãs passaram a morar sozinhas em uma antiga cozinha emprestada, dormindo juntas em um colchão de solteiro no chão, sem banheiro, apenas com um fogão à lenha.
Na nova escola, o uniforme exigia calçado fechado, mas o pai só pôde comprar um par de sapatos. Como estudavam em turnos diferentes, as irmãs revezavam o mesmo calçado para assistir às aulas. A situação financeira melhorou quando a irmã conseguiu um trabalho que pagava R$ 25 e Rosilene outro de R$ 20. “A minha irmã conseguiu um trabalho que ganhava R$ 25, eu consegui um que ganhava R$ 20, ali já foi melhorando um pouco mais a nossa a nossa situação financeira”, contou.
Recomeço no Espírito Santo e obstáculos escolares
Com o tempo, as duas se integraram à rotina da cidade, fizeram amizades e buscaram novas oportunidades. Com ajuda de conhecidos, deixaram a Bahia e se mudaram para Colatina, no Espírito Santo. Lá, Rosilene descobriu que perdera o prazo da matrícula regular e precisou concluir o 3º ano do ensino médio por supletivo, concluindo a etapa em apenas três meses, pois passava o dia todo na escola. Para isso, percorria 7 km a pé entre casa e escola por falta de dinheiro para o ônibus.
Perto de concluir o ensino médio, conseguiu emprego como doméstica e passou a morar na residência da família empregadora. Tempos depois, recebeu um ultimato da patroa: escolher entre trabalho e estudos. Sem hesitar, pediu demissão para terminar a formação escolar. Já formada, decidiu cursar Direito e, em novo emprego doméstico, contou com apoio dos patrões. Para se preparar, usou metade do salário para pagar aulas particulares com um professor que reduziu o valor, sendo aprovada em um curso técnico de dois anos.
Conquista da faculdade e rotina exaustiva
Após se formar no técnico, Rosilene foi contratada por uma mineradora, recebendo R$ 750. Com o novo emprego, decidiu tentar a faculdade de Direito. “Eu fui fazer o vestibular, só que o valor da mensalidade era R$ 490. Eu falei: ‘Bom, eu ganho R$ 750 e pago aluguel, não vai dar’. Mas resolvi fazer para ver se passava e, depois, resolver [o que fazer]. Fiz e passei. Em seguida, fui lá e pedi uma bolsa”, relatou.
Após nova prova, obteve 50% de desconto e iniciou a graduação em 2008, conciliando trabalho integral e aulas noturnas.
Consciente das deficiências do ensino básico, Rosilene impôs a si mesma uma rotina rigorosa: “Tendo plena consciência da minha deficiência do ensino fundamental e médio, eu sabia que estava muito atrás dos colegas, então chegava da faculdade, estudava, reforçava o conteúdo. Eu coloquei para mim uma meta de estudar até 1 hora da manhã”. A fonte não detalhou o momento exato de sua aprovação na magistratura, mas a narrativa evidencia uma escalada de superação.
Para advogados e operadores do Direito, a história de Rosilene ilustra como barreiras socioeconômicas podem ser vencidas por meio de educação e persistência, sem relação direta com mudanças legislativas ou decisões judiciais específicas. A trajetória, embora pessoal, ressoa no meio jurídico como exemplo de mobilidade social e acesso à carreira.
Fonte
- www.direitonews.com.br
- Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros (fenaj.org.br)
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