O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei que institui o chamado “Pix Pensão”, mecanismo inovador de pagamento automático de pensão alimentícia por meio de transferência eletrônica. A norma altera o Código de Processo Civil (CPC) e a Lei 11.364/2006, e passa a valer um ano após sua publicação. O objetivo é ampliar a efetividade das decisões judiciais, reduzindo atrasos e alcançando devedores que, até então, escapavam aos descontos tradicionais.
Mecanismo automático via sistema financeiro
A legislação acrescenta o artigo 529-A ao CPC, autorizando o credor a requerer ao juiz a transferência automática da pensão. Caberá ao magistrado definir, na decisão, o valor mensal, a data do pagamento, o período de duração da obrigação e as contas de origem e de destino dos recursos. O devedor poderá indicar a conta bancária da qual serão realizados os débitos, conferindo transparência ao procedimento.
A ordem poderá ser expedida em qualquer fase do cumprimento da sentença e será executada por meio de sistemas eletrônicos integrados ao sistema financeiro. Com isso, elimina-se a necessidade de sucessivas petições e intimações, reduzindo a burocracia processual. A medida representa um salto em relação ao modelo anterior, que dependia exclusivamente do desconto em folha de pagamento.
Alcance ampliado a autônomos e empresários
O novo procedimento expande os mecanismos já previstos no CPC, que atualmente permitem o desconto da pensão diretamente da remuneração de:
- servidores públicos;
- empregados com carteira assinada;
- militares;
- diretores ou gerentes de empresas.
Com a mudança, o débito automático também poderá alcançar trabalhadores autônomos, empresários e outros devedores sem renda formal registrada. A inovação é crucial porque muitos devedores não possuem vínculo formal de trabalho e, por isso, não estão sujeitos ao desconto em folha, principal causa de atrasos e inadimplência.
Ao incluir esse vasto grupo, a lei corrige uma lacuna que frequentemente deixava crianças e dependentes desamparados. Agora, basta que o devedor possua uma conta bancária ativa para que os valores sejam debitados pontualmente. A expectativa é que a medida reduza significativamente o número de execuções de alimentos.
Saldo insuficiente e bloqueio de ativos
Caso não haja saldo suficiente na data fixada para o pagamento, a instituição financeira deverá informar a ocorrência à autoridade responsável pela supervisão do sistema financeiro. A partir dessa comunicação, outros ativos do devedor poderão ser tornados indisponíveis, até o limite atualizado das prestações em atraso. O bloqueio poderá alcançar:
- dinheiro em espécie ou em depósito;
- aplicações financeiras;
- títulos da dívida pública;
- valores mobiliários;
- veículos;
observada a ordem de preferência estabelecida pelo CPC.
Uma vez bloqueados, os valores poderão ser convertidos em penhora e transferidos à conta do beneficiário em até 24 horas após a decisão judicial. Essa rapidez na conversão é uma das grandes vantagens do novo sistema, evitando que o devedor se desfaça de bens antes da efetivação da medida.
Outros meios de cobrança seguem válidos
O procedimento do Pix Pensão não afasta os demais instrumentos de cobrança da pensão alimentícia já existentes. Continuam disponíveis:
- penhora de bens;
- protesto da decisão judicial;
- prisão civil do devedor (nas hipóteses previstas em lei).
A nova ferramenta soma-se ao arcabouço legal, oferecendo uma alternativa mais ágil e menos onerosa para o credor, mas sem substituir as garantias tradicionais.
Empresários individuais sem separação patrimonial
Bloqueio de bens empresariais
Para os empresários individuais, a lei traz regra específica: o bloqueio também poderá atingir valores e ativos vinculados à atividade empresarial. Isso ocorre porque, nessa modalidade, não existe separação patrimonial entre a pessoa física e a empresa.
Novo artigo 137-A do CPC
Além disso, a legislação acrescenta o artigo 137-A ao CPC, dispensando a instauração do incidente de desconsideração da personalidade jurídica nas execuções movidas contra empresários individuais. Com isso, o credor não precisará abrir um procedimento específico para alcançar os bens utilizados na atividade empresarial, acelerando a satisfação do crédito.
Transparência e políticas públicas
A nova lei também modifica a Lei 11.364/06 para ampliar a coleta e a divulgação de informações sobre a atividade do Poder Judiciário. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) deverá produzir estatísticas específicas sobre as ações de alimentos, incluindo dados sobre:
- quantidade de processos;
- valores discutidos;
- medidas de bloqueio;
- características dos beneficiários.
As informações serão divulgadas de forma agregada ou anonimizada, com preservação da identidade das partes e observância da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
O texto também incentiva a realização de atos processuais em formatos que facilitem a coleta e o compartilhamento de dados entre órgãos públicos, com o objetivo de subsidiar a elaboração de políticas públicas voltadas à garantia do pagamento de alimentos.
Vacatio legis e expectativas
A norma entrará em vigor um ano após sua publicação. O prazo de vacatio legis é considerado adequado para que os tribunais, as instituições financeiras e os advogados se adaptem às novas rotinas. A expectativa de especialistas é que o Pix Pensão se torne rapidamente a principal ferramenta de cobrança de alimentos no país, reduzindo a litigiosidade e garantindo maior proteção aos alimentandos.
Fonte
- www.direitonews.com.br
- PL 4.978/23 (www25.senado.leg.br)
- CPC (www.planalto.gov.br)
- lei 11.364/06 (www.planalto.gov.br)
- LGPD (www.planalto.gov.br)
- https://www.migalhas.com.br/quentes/461272/lula-sanciona-pix-pensao-para-pagamen (www.migalhas.com.br)
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