Quando os direitos humanos dependem do agressor, da narrativa e da conveniência ideológica
Por Jairo Glikson –
Há silêncios que gritam. E há indignações que escolhem cuidadosamente quando, onde e contra quem se manifestar.
Nos últimos anos, o mundo assistiu a uma mobilização ruidosa de setores do ativismo progressista internacional — inclusive no Brasil — em condenação a Israel em sua guerra contra a organização terrorista Hamas. Marchas, manifestos, notas públicas, ocupações simbólicas, discursos inflamados e até flotilhas “humanitárias” ganharam destaque nas redes sociais e na imprensa global.
Mas agora, diante do que ocorre no Irã, o silêncio é ensurdecedor. Onde estão os protestos? Onde estão as notas oficiais? Onde estão os gritos por direitos humanos?
E, sobretudo: onde está a coerência? O Irã vive, hoje, uma escalada brutal de repressão interna. Mulheres seguem sendo presas, espancadas e mortas por desafiarem regras impostas pelo regime teocrático. Dissidentes políticos desaparecem. Homossexuais são perseguidos. Jornalistas são silenciados. Execuções seguem ocorrendo. Tudo isso amplamente documentado por organismos internacionais, relatórios independentes e pela própria ONU.
Não se trata de narrativa. Trata-se de fatos. Ainda assim, não há flotilhas simbólicas navegando rumo a Teerã.
Não há campanhas globais lideradas por influenciadores ambientais.
Não há mobilizações universitárias massivas.
Por que? É impossível ignorar que muitos dos mesmos ativistas, influenciadores e militantes que se colocaram como porta-vozes universais da justiça social em outros conflitos simplesmente não se manifestam diante das violações sistemáticas promovidas pelo regime iraniano.
Onde estão, neste momento, vozes como as de Greta Thunberg e de tantos outros nomes que se apresentaram como consciência moral do planeta?
Por que alguns parlamentares permanecem em silêncio?
Por que algumas lideranças partidárias não se posicionam com a mesma veemência?
São perguntas legítimas. E necessárias.
A defesa dos direitos humanos perde sua essência quando se transforma em instrumento ideológico. Quando a indignação depende do alinhamento político do agressor. Quando o discurso muda conforme o inimigo da vez.
Não é possível defender mulheres palestinas e ignorar mulheres iranianas.
Não é coerente denunciar “opressões culturais” seletivamente.
Não é honesto falar em liberdade enquanto se silencia diante de um regime que a sufoca diariamente.
A verdadeira defesa dos direitos humanos não escolhe lado geopolítico. Ela escolhe a dignidade humana. O silêncio, nesses casos, não é neutralidade. É escolha. E toda escolha carrega responsabilidade.
Ao calar diante do Irã, parte do ativismo progressista revela algo incômodo: não está movido por princípios universais, mas por narrativas convenientes. Não luta por direitos humanos, mas por causas politicamente palatáveis.
Isso não fortalece a justiça social. Isso a enfraquece.
O mundo não precisa de militância seletiva. Precisa de coragem moral. Precisa de coerência. Precisa de vozes que defendam a vida, a liberdade e a dignidade independentemente de quem seja o opressor. Porque, quando os direitos humanos se tornam reféns da ideologia, deixam de ser direitos — e passam a ser apenas discurso.
E discurso, sem coerência, não liberta ninguém.

Dr. Jairo Glikson
Advogado civilista há mais de 20 anos, com atuação especializada em contencioso e litigância cível. Possui também uma trajetória marcada pela vida pública — foi candidato a vice-governador de São Paulo e a vice-prefeito da capital por duas vezes. É membro atuante de conselhos e associações de bairro.
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
Imagem em destaque: internet
- O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
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Um comentário
Jairo é antissemitismo puro, inveja e etc.