Por Dra. Anete Pizzimenti
Talvez por ter vivido o suficiente para ver muitas causas justas se perderem no excesso de barulho, aprendi a desconfiar dos clamores que chegam embalados em urgência moral. Tenho acompanhado, com atenção e certo incômodo, o movimento que exige que a próxima vaga no Supremo Tribunal Federal seja ocupada por uma mulher — preferencialmente negra.
Antes que me interpretem mal, deixo claro: não há nada mais legítimo do que desejar ver mulheres em espaços de poder. Nós sabemos o quanto foi árduo conquistar o direito de sermos ouvidas, respeitadas, consideradas. Mas o que me inquieta é quando o gênero, que deveria ampliar horizontes, se torna um critério de exclusão. Quando o ser mulher é usado como senha e não como símbolo de capacidade.
O Supremo não é um palco de representações — é uma instituição que se sustenta sobre técnica, razão e independência. Não é lugar de espelhos, é lugar de princípios. A Justiça, quando é verdadeira, não tem rosto, nem cor, nem sexo. Ela tem consciência.
O que me preocupa nessa pressa de “ter uma mulher lá” é o que se perde de vista: o mérito. Já vi mulheres brilhantes reduzidas a um estereótipo, como se precisassem justificar a própria competência por meio de uma bandeira. Isso é cruel. Nenhuma mulher deveria carregar o peso de representar todas as outras. O que legitima nossa presença é a trajetória, não a circunstância.
Quando uma mulher chega onde poucos chegam, ela não está apenas “ocupando” um espaço — está reescrevendo a história. Mas para que essa escrita seja legítima precisa nascer do reconhecimento e não da concessão.
A pressão identitária, tão ruidosa, às vezes silencia o que é essencial: a busca pela excelência. Representatividade sem preparo é discurso; mérito com propósito é transformação. E transformação é o que o Brasil mais precisa — especialmente quando se trata da Suprema Corte, que anda, há tempos, desafiada a reencontrar o equilíbrio entre independência e politização.
Não quero uma mulher no STF apenas para que digam “há uma mulher no STF”. Quero uma jurista que, ao assumir a toga, o faça com a serenidade de quem conhece o peso da lei e a leveza de quem entende o valor da justiça. Quero que ela inspire não pelo gênero, mas pela grandeza.
E, se me permitem um devaneio pessoal: acredito que o mérito também é uma forma de feminilidade. Há algo profundamente feminino na competência silenciosa, na dedicação constante, na coragem de enfrentar o que é difícil sem precisar anunciar.
Portanto, que venha uma mulher, sim — mas que venha por mérito, não por militância. Que chegue ao Supremo não como um troféu identitário, mas como a síntese do que o Direito pode ter de mais nobre: a sabedoria, a integridade e o senso de justiça.
Talvez o mérito seja a forma mais silenciosa de justiça — e é nela que a verdadeira igualdade se revela.

Dra. Anete Maria Pizzimenti
Advogada, Conciliadora e Mediadora habilitada pelo Conselho Nacional de Justiça. Pós-graduada em Direito de Família e Sucessões pela Escola Superior de Advocacia, Graduada em Direito pela UNIMESP – FIG e em Administração de Recursos Humanos pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).
Atua no Direito há mais de três décadas, com olhar atento às relações humanas e à ética que sustenta as instituições. Escreve sobre justiça, sociedade e o valor do mérito sob a perspectiva de quem acredita que o Direito, antes de ser norma, é expressão de humanidade.
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
Crédito da imagem em destaque: Microsoft Copilot
- O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
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