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O Silêncio que Custa Caro

Por Giuseppe Fagotti

Há algo profundamente inquietante no Brasil contemporâneo: o contraste entre a escassez e o excesso. Vivemos um Brasil de paradoxos dolorosos. Faltam recursos para escolas que desabam, para hospitais que lutam pela sobrevivência e para cidades reféns da insegurança pública. Mas sobra dinheiro — muito dinheiro — para propaganda política, campanhas institucionais travestidas de informação e projetos seletivos financiados com recursos públicos.

Não se trata apenas de números. Trata-se de prioridades. E de escolhas.

Enquanto a população enfrenta filas, violência e abandono, bilhões são direcionados para sustentar narrativas, promover governos e manter estruturas de poder. Em 2024, o governo federal já havia gasto mais de R$ 770 milhões em publicidade estatal, distribuídos entre televisão, internet e mídia impressa. E os valores de 2025 indicam um crescimento ainda maior no uso desses recursos públicos para fins comunicacionais. (Poder360)

A propaganda oficial cresce, se reinventa, muda de nome, mas conserva o mesmo objetivo: moldar percepções, controlar discursos, influenciar consciências. Tudo isso com dinheiro que não pertence a governos, partidos ou gestores, pertence ao povo.

Em paralelo, o volume de recursos captados via Lei Rouanet atingiu um recorde de R$ 3,41 bilhões em 2025, distribuídos em milhares de projetos culturais em todas as unidades federativas. (Serviços e Informações do Brasil) Enquanto isso, setores básicos da sociedade clamam por investimentos substanciais que não chegam. Projetos alinhados a determinadas agendas recebem apoio abundante, enquanto manifestações culturais genuínas, regionais e populares seguem invisíveis. A cultura virou instrumento; o artista, moeda; e o cidadão, apenas o financiador silencioso.

Recentemente, o economista e presidente argentino Javier Milei provocou a reflexão pública ao dizer que “artista que depende de verba pública, não é artista, é funcionário público”. Esse comentário, embora debatível, nos convida a pensar: quando o dinheiro do contribuinte deixa de servir ao bem comum e passa a financiar narrativas que interessam a governos ou grupos específicos, a própria noção de cultura e de serviço público se distorce.

Não se trata de negar o valor da cultura ou da comunicação social, ambos são essenciais, mas de questionar escolhas de prioridade quando a educação, a saúde e a segurança clamam por investimento real, não apenas simbolismos.

O paradoxo se intensifica quando observamos que, em meio a esse cenário, diversas denúncias e investigações envolveram agentes públicos em crimes de corrupção, desvios ou condutas eticamente questionáveis e, muitas vezes, sem uma resposta institucional proporcional à gravidade dos fatos. O silêncio de entidades civis que, no passado, se apresentavam como guardiãs da ética e direitos da população torna esse contraste ainda mais grave.

E é justamente nesse ponto que a reflexão se expande: onde estão as vozes que historicamente representavam a sociedade? Que mobilizavam debates públicos, cobravam transparência e defendiam o interesse coletivo? Muitas organizações civis, outrora ativas e combativas, hoje parecem reduzidas ao silêncio ou à neutralidade confortável diante de questões estruturais profundas.

Esse contexto de apatia é ainda mais preocupante quando olhamos para a OAB — Ordem dos Advogados do Brasil. Instituição que, em momentos cruciais da história nacional, ergueu sua voz em defesa da Constituição, dos direitos humanos e da justiça social, hoje vive uma crise de representatividade.

Ao se afastar do debate público mais amplo, a OAB não abandona apenas a sociedade — fragiliza também a própria classe dos advogados. Uma advocacia sem protagonismo institucional perde força, perde respeito e perde relevância. E uma sociedade sem uma advocacia forte torna-se mais vulnerável ao arbítrio, ao autoritarismo e à injustiça.

A pergunta que fica não é apenas “o que aconteceu?”, mas até quando aceitaremos que aconteça.

E esse vácuo institucional fica ainda mais evidente quando lembramos que grande parte das entidades organizadas que deveriam ser instrumentos de participação democrática parecem alheias ou inertes diante de questões que dizem respeito ao interesse público maior.

Até que ponto o dinheiro e o poder compram a dignidade?

Até quando aceitaremos que dinheiro público seja usado mais para moldar narrativas do que para promover soluções sociais concretas?

E como isso afeta a confiança de uma sociedade que luta por justiça, igualdade e dignidade?

O silêncio custa caro.

Ele custa em vidas não salvas, em juventudes sem oportunidade, em direitos submersos por prioridades distorcidas.

Uma sociedade que deseja ser realmente democrática precisa não apenas de eleições e instituições, precisa de vozes ativas, entidades representativas que não se curvem ao poder e que, de fato, defendam os valores constitucionais da nação.  Sustenta-se com vigilância, coragem institucional e vozes que não se calam diante do abuso.

O direito de falar, de questionar e de defender o interesse público é um alicerce essencial da cidadania. E quando instituições governamentais ou civis abdicar desse papel, a democracia silenciosamente se esvazia.

O Brasil merece mais que palavras. Merece prioridades que respeitem sua gente.


Dr Giuseppe Claudio Fagotti

Advogado, especialista em direito do trabalho, sócio da Fagotti Sociedade de Advogados, Presidente do Tribunal de Justiça Desportiva da FPJ, secretário geral do Movimento Advogados Independentes, foi conselheiro e vice -presidente jurídico da Associação Portuguesa de Desportos-SP, Conselheiro da Associação dos Advogados Trabalhistas de São Paulo e membro coordenador da comissão de Prerrogativas da OAB/SP.

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**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
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