Por Jairo Glikson
Há decisões políticas que ultrapassam o campo da conveniência administrativa. Elas tocam naquilo que é simbólico, naquilo que nos define como sociedade: o respeito à memória, à dignidade e à história de um povo. A recente nomeação do ex-vereador Adilson Amadeu como assessor especial da Secretaria de Relações Institucionais da Prefeitura de São Paulo causou perplexidade e desconforto entre as lideranças da comunidade judaica. Amadeu foi condenado duas vezes por declarações de teor antissemita — o que torna sua indicação para um cargo estratégico na gestão municipal de Ricardo Nunes uma decisão difícil de compreender sob qualquer ótica moral ou institucional.
Não se trata de um deslize burocrático. Trata-se de alguém que, por duas vezes, proferiu declarações ofensivas e discriminatórias contra os judeus — e cuja condenação foi mantida pela Justiça de São Paulo. Ao colocá-lo em um cargo público, a Prefeitura de São Paulo envia uma mensagem dúbia e perigosa: a de que o preconceito pode ser relativizado quando convém politicamente.
E isso é especialmente grave quando se considera o papel que a comunidade judaica desempenhou — e continua a desempenhar — na construção do Brasil. A presença judaica em nosso país remonta às próprias caravelas de Pedro Álvares Cabral, quando judeus convertidos e perseguidos pela Inquisição viram no Novo Mundo uma chance de recomeçar. Desde então, os judeus participaram ativamente da formação cultural, científica e econômica do país.
Em São Paulo, sua contribuição é visível e profunda: na medicina, nas universidades, nas artes, no comércio, na filantropia e no fortalecimento da democracia. São pessoas de bem, que ajudaram a erguer esta cidade com trabalho, estudo e solidariedade — valores que sempre caminharam lado a lado com a ética judaica e o princípio de tikun olam, o dever de “consertar o mundo”.
É por isso que esta nomeação não é apenas um erro político. É uma ferida moral. Num momento em que o mundo enfrenta o ressurgimento de discursos de ódio e intolerância, especialmente contra judeus, qualquer gesto público de complacência com o antissemitismo deveria ser impensável. A memória do Holocausto e dos milhões que morreram por serem quem eram exige vigilância, coerência e respeito.
São Paulo é uma cidade plural, construída por mãos de todas as origens. Nela, convivem religiões, culturas e modos de pensar — e é justamente essa diversidade que a torna grande. Nomear para um cargo público alguém condenado por discriminar uma dessas comunidades é negar essa grandeza.
O prefeito Ricardo Nunes, que sempre buscou projetar uma imagem de diálogo e moderação, tem agora uma oportunidade de reafirmar, com gestos e não apenas palavras, seu compromisso com os valores democráticos e humanos que sustentam nossa sociedade. Porque, em tempos de intolerância travestida de opinião, neutralidade também é escolha.
Há momentos em que o silêncio é cúmplice e a omissão é um ato político. Este é um deles.

Dr. Jairo Glikson
Filho de sobreviventes do holocausto, Advogado civilista há mais de 20 anos, com atuação especializada em contencioso e litigância cível. Possui também uma trajetória marcada pela vida pública — foi candidato a vice-governador de São Paulo e a vice-prefeito da capital por duas vezes. É membro atuante de conselhos e associações de bairro.
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
Imagem em destaque: site adilsonamadeu.com.br/biografia/
- O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
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