Por Jairo Glikson
Poucos temas no mundo contemporâneo despertam reações tão intensas quanto Israel. Em muitos círculos da esquerda global, o pequeno país do Oriente Médio é visto como vilão, colonialista, opressor, símbolo do “imperialismo ocidental”. Por mais incrível que pareça, desconsideram o fato de ser um país com 9 milhões de habitantes, onde os “árabes israelenses” representam aproximadamente 21% da população — sendo predominantemente muçulmanos, mas também incluindo cristãos e drusos —, os quais possuem liberdade religiosa e de expressão, ocupam diversos papéis de relevância dentro da sociedade israelense: são juízes, policiais, políticos, comerciantes e têm espaço no parlamento, elegendo seus representantes. Como se não bastasse, omitem o fato de Israel estar cercado, por todos os lados, por países árabes com população de quase 1 bilhão de muçulmanos — e, mesmo assim, ser taxado de colonialista.
Mas a pergunta que se impõe — e que raramente é feita com honestidade — é: por que tanto ódio a um povo que construiu, do deserto, um dos países mais inovadores, democráticos e diversos do planeta?
O moderno Estado de Israel nasceu em 1948, após séculos de perseguição e um Holocausto que exterminou seis milhões de judeus da face da Terra. Foi fundado por pessoas que vieram de todas as partes do mundo — não apenas judeus europeus loiros e de olhos azuis, mas também judeus árabes fugidos de perseguições, sobreviventes, sonhadores, agricultores e cientistas — todos com a missão em comum de erguer uma nação. Cercado por inimigos desde o primeiro dia de sua existência, lutou pela sobrevivência em meio a guerras e as venceu, enfrentou embargos e terrorismo. Ainda assim, floresceu e assim se mantém.
O moderno Estado de Israel surgiu diretamente da influência do socialismo judaico — ou sionismo socialista, uma corrente que enfatiza a justiça social e os valores humanistas da religião judaica. Não resta dúvida do quanto foram marcantes e determinantes os ideais socialistas na consolidação do atual Estado de Israel, ainda hoje representados pelo Partido Trabalhista (Havoda).
Hoje, Israel é líder mundial em ciência, tecnologia e inovação. De lá saíram avanços que salvam vidas no mundo todo: vacinas, microchips, aplicativos, tratamentos médicos, sistemas de irrigação que transformaram desertos em terras férteis e tecnologias de dessalinização que inspiram o planeta. É um laboratório vivo de progresso, resultado direto de um povo que aprendeu, pela dor, o valor do conhecimento e da resiliência.
Mas Israel também é um país singular porque mistura, de forma única, o socialismo e o capitalismo. No início da construção do Estado, os kibutzim, moshavim e pnimiot surgiram como comunidades coletivas, onde tudo era dividido igualitariamente — o tão sonhado socialismo se materializava nessas organizações sociais, que simbolizavam o ideal igualitário do povo judeu. Com o tempo, evoluíram: abriram-se ao mercado, preservaram o senso de coletividade e se tornaram motores de inovação e turismo. Israel é, portanto, a prova viva de que é possível coexistirem o ideal coletivo e a cooperação mútua com a livre iniciativa e o livre mercado. Capitalismo e socialismo convivem ali em harmonia — o sonho que tantos ideólogos tentam impor à força se realiza em Israel com naturalidade, cumplicidade, respeito e reconhecimento.
Há ainda algo que raramente a esquerda reconhece em Israel: o respeito a quem pensa diferente. Todos os cidadãos — sejam judeus, muçulmanos, cristãos, drusos, homossexuais ou heterossexuais, socialistas ou capitalistas — têm direitos garantidos por lei. Mulheres servem no exército e ocupam altos cargos públicos. Homossexuais vivem abertamente, casam-se, lideram empresas e partidos. A liberdade religiosa é respeitada, e o laicismo também existe. É o único país do Oriente Médio em que isso acontece.
Enquanto isso, países defendidos e enaltecidos pela esquerda internacional e progressista — como o Irã, entre outros — enforcam homossexuais em praça pública, oprimem mulheres, praticam a pena de apedrejamento por adultério, censuram a imprensa e não permitem liberdade de expressão. Neles, não há direito sindical, liberdade de associação nem oposição política. Reconhecem e praticam uma sociedade patriarcal, proíbem o feminismo, não aceitam o Estado laico — permitindo apenas uma forma de religião — e financiam grupos terroristas que pregam a destruição de Israel, dos Estados Unidos e de qualquer nação ou povo que adote outra fé.
É um paradoxo: quem diz lutar por “direitos humanos” silencia diante de regimes que os violam sistematicamente, onde sequer existiriam como pessoas ou ideologias. Mas gritam contra a única democracia estável e plural da região.
Por que isso acontece? A resposta é complexa, mas passa por três grandes fatores.
O primeiro é ideológico. Desde a Guerra Fria, parte da esquerda adotou uma visão de mundo dividida entre “opressores” e “oprimidos”. Nesse esquema simplista, Israel — aliado do Ocidente e dos Estados Unidos — foi colocado no papel de “imperialista”, enquanto os palestinos passaram a ser vistos como “vítimas eternas”. O problema é que essa narrativa ignora a história, as tentativas de paz rejeitadas e o fato de que o Hamas, que governa Gaza com mão de ferro, não luta por um Estado palestino livre, mas pela destruição total de Israel.
O segundo fator é geopolítico e financeiro. Muitos movimentos, partidos e mídias recebem financiamento direto ou indireto de países que têm interesse em manter viva a causa anti-Israel — especialmente o Irã, que vê no ódio aos judeus uma ferramenta de mobilização política e religiosa. Enquanto isso, Israel é um incômodo: moderno, próspero, democrático, plural e cada vez mais influente. Um modelo que desmente a velha retórica de que “só o socialismo traz justiça”. Em Israel, o socialismo e o capitalismo se completam como modelo econômico e social.
O terceiro fator é emocional e histórico. O antissemitismo, infelizmente, não desapareceu — apenas mudou de roupa. Se antes era justificado por motivos religiosos ou raciais, hoje se mascara de “antissionismo”. Criticar o governo de Israel é legítimo, como em qualquer democracia; mas negar o direito do povo judeu de existir, ou aplicar a Israel padrões que não se aplicam a nenhum outro país do mundo, é pura intolerância. É o velho ódio travestido de discurso moral.
E há ainda uma pergunta que ecoa no silêncio das manchetes: por que a esquerda não comemora o fim da guerra?
Por que, em vez de celebrar a libertação dos reféns, o cessar-fogo e a reconstrução da paz, há quem lamente o colapso do Hamas?
Talvez porque, no fundo, o conflito sirva a uma narrativa conveniente — aquela que precisa de oprimidos e opressores, bons e maus, para justificar ideologias falidas.
A paz e a coexistência em Israel desmontam esse enredo. Mostram que é possível prosperar, inovar e defender a liberdade sem recorrer ao autoritarismo ou à vitimização.
Israel, com todas as suas contradições e desafios, representa exatamente o contrário do que seus críticos pregam: um país onde mérito, educação e diversidade são forças transformadoras. Onde o conhecimento vence a destruição. Onde a pluralidade é regra, não exceção.
E talvez seja justamente por isso que incomoda tanto.

Dr. Jairo Glikson
Filho de sobreviventes do holocausto, Advogado civilista há mais de 20 anos, com atuação especializada em contencioso e litigância cível. Possui também uma trajetória marcada pela vida pública — foi candidato a vice-governador de São Paulo e a vice-prefeito da capital por duas vezes. É membro atuante de conselhos e associações de bairro.
**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
Imagem em destaque: REUTERS/Benoit Tessier
- O Movimento Advocacia Independente (MAI) é uma associação privada sediada em São Paulo, Brasil. Seu foco principal é a defesa de direitos sociais, atuando como uma organização voltada para a advocacia e questões jurídicas.
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